Ensaio, Texto

O homem, um animal poético, e sua postura diante da palavra de Deus: um brainstorming ensaístico sobre sensibilidade ao Criador

O Astrónomo (1668) Johannes Vermeer

“[…] é impossível compreender toda a glória do cristianismo sem compreender sua poesia”. — Dana Gioia in Cristianismo e poesia

1. Origem: Deus é essencialmente um Criador, dá ordem ao caos, faz tudo com arte e beleza. Ordenou o mundo com linguagem, com logos, com poesia. Criou o homem à sua imagem e semelhança, sendo o homem portador também da palavra, de pensamento, de razão. Isto difere o homem dos animais: o homem é um animal poético. Tirando a poesia do homem, centelha divina, o que restará será bestialidade.

2. Identidade: Deus é o inspirador das Escrituras Sagradas (2 Timóteo 3:16-17), suficientes para que o homem seja “plenamente preparado para toda boa obra” (NVI). Sendo Deus um artista por excelência, inspirou homens com tal arte, e nos deu textos maravilhosos, cheios de beleza, de estilo, de técnica, de solenidade, de verdade. Quiasmas, paralelismos, aliterações, assonâncias, acrósticos e toda sorte de recurso poético foi usado pelo Criador para nos encher do seu Espírito. A primeira menção de “cheio do Espírito”, nas Escrituras, é para se referir a um artista inspirado para trabalhar na obra de Deus (Êxodo 31:3). O que Deus faz e inspira é cheio de beleza.

3. Oposição: Satanás é o maior interessado na morte da poesia — enquanto atitude e habilidade sensorial para a fruição do Divino, não no sentido meramente literário —, centelha divina, pois quando nos é tirada a poesia — dom de criar, apreciar o que é criado, dom da sensibilidade, que nos torna coparticipes da manutenção da Criação, como mordomos e criadores menores, semelhantes a Deus, dotados de múltiplas linguagens ordenadoras —, nos é tirada a admiração o mirandum, fonte de encanto e descoberta. Resta ao homem, sem o mirandum, o embotamento, a pachorra, a frieza dos sentidos mais elevados, o embrutecimento, a bestialidade.

4. Consequência: O embrutecido, o homem bestial, insensível, é incapaz de apreciar a beleza presente nas Escrituras, acusando-as de obscurecidas, sem graça, complicada demais para merecer algum esforço — o esforço até de morte desvia-se para as coisas mais banais, como a crença de que somos animais meramente e irredutivelmente políticos, por exemplo —, impossível de proporcionar prazer e sabedoria. Perder a poesia é, potencialmente, perder a fonte de salvação, pois a insensibilidade estética enferruja e emperra as dobradiças das portas que levam à compreensão da revelação divina.

5. Conclusão: Toda forma de conhecimento que despreza a poesia, embrutece e produz o homem bestial, afastando-o, em algum grau, de sua semelhança com Deus, obnubilando sentidos humanizadores, centelha divina útil, aliada à razão, para tornar a criatura sensível ao Criador. Ignorar a criação do grande Artista é indesculpável, é tornar a capacidade de pensamento em futilidade, é tornar a sabedoria em tolice (Romanos 1:20-22 NVI). Poesia não é salvação, mas é a ponte da imago Dei, habilidade aliada que nos sensibiliza ao Criador, abertura ao seu Santo Espírito, que deseja nos preencher. Poesia aqui, não é mérito humano, mas dádiva, dom de Deus, muitas vezes rejeitado. O homem é um animal poético, pois é criatura do Criador.

Publicado por Anderson C. Sandes

Poeta, cronista, ensaísta. Autor de Baseado em Fardos Reais; Arte e Guerra Cultural: preparação para tempos de crise; organizador da Antologia Quando Tudo Transborda; entre outras obras. Pedagogo. Membro da Academia Brasileira de História e Literatura e membro correspondente da Academia Mourãoense de Letras. Vivo de poesia pra não morrer de razão.

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