Destaque

Livro “Baseado em fardos reais”

Que descansa em paz? Não, querido leitor, eu não estou morto. Quem vos escreve não é um espectro branco e perturbado, é um poeta amarelo, que descansa em paz.

Reparou na belíssima capa? Tem como fundo a obra La Siesta, de Van Gogh, pintor sobre qual Mário Quintana reflete: Se não fosse o Van Gogh, o que seria do amarelo? Veio bem a calhar, uma obra de Van Gogh adornando a obra de um poeta amarelo, envelhecido.

Poesia

Elogio à humildade

Ford Madox Brown [Jesus Washes Peter's Feet], 1852-56 (Detalhe)

Dai privação ao opulento
e haverá miséria,
ranger de dentes.
Cessará o riso a contento,
e a canção etérea
outrora correntes

Poesia

Quiasma cósmico

Martin Johnson Heade [Sailing by Moonlight], 1860 (Detalhe)

Circunda a rotunda Selene
Ao agito de frias ondas
A banhar a alva areia
Tão clara ao brilho perene
Arrefece amantes em rondas
Sob a bela lua cheia

Poesia

Sublimação

Joshua Reynolds [David Garrick Between Tragedy and Comedy], 1761 (Detalhe)

A tinta que ora jorra o impresso
fora hemorrágica em outrora,
pulsa produtividade tal
da inatividade vital de agora.
Ah, vintém poupado ao bolso,
não vai ao divã, ao fosso,
sublimou da mágoa ao gozo
o dente amarelo restaurado.

Poesia

Outdoors

Ignatius Josephus Van Regemorter [The Fish Market in Antwerp], 1827 (Detalhe)

Todo crível agora incrível
Qualquer sutileza é histórica
O distante faz-se acessível
Toda bravata é heróica
Rotidão: imperecível
Todo babado em retórica

Poesia

Soneto em ré menor

Peter Paul Rubens [The Great Last Judgement], 1617 (Detalhe)

Sobre os pardos caibros e branco gesso
Soa altivo um ré menor, amiúde
Que avizinha-se à minh’alma, ao espesso
Qual u’a melancolia em amplitude

Poesia

Soneto à prole

Claude Monet [The cradle], 1867 (Detalhe)

Há bosquejo meu em tua tenra alma
Maquete nossa em tal ventre matriz
Que muito o embala, acalenta e dá calma
Partícipes em teus sonhos pueris

Texto

Três motivos fundamentais para aprender a gostar de Poesia

O Parnaso (1511) by Rafael Sanzio

Longe de mim, caro leitor atento, intencionar mero utilitarismo à poesia. De tal escola passo ao largo, vendo poesia — poíesis (ποίησις, no grego) — como: ato de criar ou fazer, como matriz, e por vezes nutriz, não como mero artifício, técnica, ou gênero literário com fins supostamente úteis. Oscar Wilde certa vez escreveu: “A Arte é completamente inútil”in O Retrato de Dorian Gray. Tendo a crer que o escritor disse, de modo tímido e com foco em outras questões, que a arte está para além das utilidades, pois a transcende num arroubo sublime, quase que viva, permitindo-se ser utilizada vez ou outra. Nunca ouvi alguém questionar o porquê da beleza da natureza ou de obras humanas, apenas expressam seus sentimentos em poucas interjeições indignas. Certa feita até já cunhei em médio discurso, como que impelido pelas musas: “a poesia não serve, pois é senhora”.

Poesia

O velho Emílio

Johann Carl Loth [Diogenes], século XVII (Detalhe)

In memoriam de Emílio Cordeiro de Lima

Jaz a lua minguante
Sobre a serena garoa
Que pega fúria
Horas depois da viração

Poesia

Um chapéu

Jean-Louis Forain [Behind the Scenes], 1880 (Detalhe)

Um bom homem deve levar
Na cabeça um bom chapéu
Tira-se o chapéu
Para respeitar alguém
Ou um ambiente respeitável
À moça que passa
Ao rapaz que observa
À nave da capela