Destaque

Livro “Baseado em fardos reais”

Que descansa em paz? Não, querido leitor, eu não estou morto. Quem vos escreve não é um espectro branco e perturbado, é um poeta amarelo, que descansa em paz.

Reparou na belíssima capa? Tem como fundo a obra La Siesta, de Van Gogh, pintor sobre qual Mário Quintana reflete: Se não fosse o Van Gogh, o que seria do amarelo? Veio bem a calhar, uma obra de Van Gogh adornando a obra de um poeta amarelo, envelhecido.

Poesia

Um chapéu

Paulo Frade. O Sertanejo II (2012)

Um bom homem deve levar
Na cabeça um bom chapéu
Tira-se o chapéu
Para respeitar alguém
Ou um ambiente respeitável
À moça que passa
Ao rapaz que observa
À nave da capela

Conto

A árvore de Natal na casa de Cristo — Fiódor Dostoiévski

O Pequeno Mendigo. Bartolomé Esteban Murillo (1645-55)

Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava

Conto

O sonho de um homem ridículo — Fiódor Dostoiévski

Retrato de Dostoiévski. Óleo sobre tela de Vasily Perov (1872). Galeria Tretyakov, Moscou.

Narrativa fantástica, 1877.

I

Sou um homem ridículo. Agora já quase me têm por louco. O que significaria ter ganho em consideração, se não continuasse sendo um homem ridículo. Mas eu já não me aborreço por causa disso, agora já não guardo rancor a ninguém e gosto de toda a gente, ainda que se riam de mim… sim, senhor,  agora, não sei por quê, mas sinto por todos os meus próximos uma ternura especial. Teria muito gosto em acompanhá-los no vosso riso… não precisamente nesse riso à minha custa, mas sim pelo carinho que me inspiram, se não me fizesse tanta pena vê-los. É pena que não saibam a verdade. Oh, meu Deus! Quanto custa isso de ser um só a saber a verdade! Mas isto não compreendem eles. Não, nunca compreenderiam isto.

Poesia

Chega a noite

Vincent van Gogh. The Starry Night (1889)

Chega a noite
Vão-se as moscas
Voltam-se os mosquitos
As primeiras zumbirão suas filosofias
Larvais em outros ares
Os segundos querem sangue
E ferem mais fundo
Mais profundo na gente
Que bate, que bate
Que mata

Poesia

Caraibeira

Vincent van Gogh. The Large Plane Trees (1889)

Qual caraibeira florescida
com vagens verdinhas e longas
surgi, depois d’um inverno quente
e longo verão brasil.

Com vergonha dos pardais
calei o canto rouco da manhã;
manhã que logo veio,
sem que percebesse meus olhos.

Poesia

Bole bole, criança

Candido Portinari. Roda infantil (1932)

Esses terreiros tortos
com crianças buliçosas só têm aqui!
Pr’acolá pode ter… mas não é igual,
boa bagunça e gritaria só em nosso quintal.

Esses campinhos de areia
com crianças malinas só têm aqui!
Pr’acolá pode até ter… mas é diferente,
nenhuma perna cambota faz gol como a gente.

Poesia

Das memórias que perdi

Rembrandt. Study of an Old Man in Profile (1630)

Quem seria eu agora,
sem saber quem fora em outrora?
Se dantes fui moço,
tento debalde recordar das paixões…
[…] oxalá! Que eu tenha tido, meu Deus!

Fito as pinturas nas paredes,
sem saber se as amava ou as detestava.
Oh, como é bela aquela tela,
que eu achava antes dela?
Nem sei mesmo quem a pintou.

Poesia

Pouco sou

Jean-Honoré Fragonard. Young Girl Reading (1770)

Por mais que eu foleasse
todas as páginas,
me enterrariam sem
de nada eu saber.
Mas de um nada muito grande…

Tão grande e profundo
que eu me afogaria.
Insisto: não sei nadar!
Não sei de nada…
Apenas me afogo.

Poesia

Deserto

Jean-Léon Gérôme. On the Desert (1867)

Quem nunca deixou
pegadas na areia?
Quem não sentiu
o pé no chão queimar?
Nesse deserto
toda alma vadeia.
Quem nunca teve
grão vil no olhar?

Poesia

Pena do Tinteiro

Armand Gautier. Untitled (1884)

— Onde está a tinta
para minha pena?
— Tomei-a, pensando
ser ela tóxica,
não era, todavia.

— Onde está a tinta?
— Oh, que pena!
Cuspo-a agora
em papel picado
cada palavra vã.