Cultura, Texto

Egolatria cinematográfica, digna de um filme

New York Movie (1939), de Edward Hopper (Detalhe)

Costumo dar atenção a críticos profissionais de cinema e a críticos amadores também, pessoas que dão opinião publicamente sobre filmes, de modo geral. Ouço reclamações diversas, e tento compreender essa diversidade das reinvindicações, ora concordo, ora não. Mas há um tipo de reclamação que incomoda, principalmente vinda dos críticos amadores, que são o mais próximo do público em geral, em termos de percepções e experiências cinematográficas.

E um dos grandes problemas do cinema atual — de vários outros — é com o público que, acostumado com uma lógica fria de consumo, vai à obra para ver a sua vontade sendo feita pelo diretor e demais artistas, sem ao menos considerar ir à obra para ver o que o diretor e demais artistas quiseram fazer. E daí tirarem algum juízo. Algumas já saem de casa afirmando: “se o filme não fizer — ou fizer — isso e aquilo, vou odiar”.

Cinema é produto? Sim, mas não apenas produto, é fruto de espíritos humanos, de criadores dotados de vontades. Não gostamos de uma pintura ou de uma música porque fizeram o que pedimos e queríamos, mas porque simplesmente fizerem como queriam, e de alguma forma nos encantou. Claro que há, e sempre houve, uma “indústria da arte” que é pensada para agradar e acalentar os gostos da massa — chamada agora de “algoritmo” —, e praticamente sempre, esse tipo de cultura é vista como algo menor, “de massa”, “enlatada”. Conformar-se com isso é uma declaração de vitória da egolatria. É a alimentação suplementada do monstro criador de “enlatados” industriais, sem alma.

Estudo de New York Movie (Palace theatre) (1938 a 1939), de Edward Hopper

Aproximar-se de um filme, ou qualquer obra de arte, com o intuito de satisfação de desejos, beira à prostituição. Torcer por personagens ou pela trama é natural, frustrar-se pela subversão da expectativa é tão natural quanto, é intenção do artista — pelo menos nas boas obras. Mas essa frustração existe em pelo menos dois níveis (três, se considerarmos um acidente): pela intenção do artista, pela egolatria desejosa do espectador e, em caso de acidentes, — não tão incomuns — quando a obra é ruim mesmo, mal pensada, escrita, executada etc. Aí já é problema para outro momento.

Em suma, o juízo é dado meramente pelo gosto, sem critérios objetivos. É como gostar de um sermão na igreja considerando apenas as emoções evocadas, pela temperatura do quentinho no coração. Essa postura não é inocente, ignorada, pois chega no topo, nos estúdios, nos investidores, que pressionam os criadores a serem óbvios, superficiais, o que nunca é o bastante. E assim é alimentada a indústria, num ciclo deletério: o espectador, o consumidor, frustra-se com a obra que desagrada sua expectativa ególatra, com a falta de clareza óbvia, com a necessidade de pensar — pois quer ver um filme rolando feed de rede social, dopaminando-se —, de pesquisar, aprender etc. As queixas influenciam outras pessoas, somam-se com outras queixas, que chegam ao topo da cadeia, que exige a mediocridade, que vende ingresso, que gera reclamações em todos, sobre “crise de criatividade”, sobre reciclagem excessiva, remakes ruins, “mais do mesmo”, franquias intermináveis etc.

Cinema não é um estádio de futebol. Há torcida, há comemoração, há clubes… mas não precisamos nos frustrar caso o time perca, pois tudo está no roteiro. É essencial deixar-se descobrir o que vai no espírito alheio, com o mínimo de expectativas e vontades, e só depois tirar as conclusões da obra. É o mais saudável a se fazer. É o mais maduro… o resto é o Narciso definhando, moribundo, a admirar o próprio reflexo… cena digna de filme — tragédia ou comédia?

Publicado por Anderson C. Sandes

Poeta, cronista, ensaísta. Autor de Baseado em Fardos Reais; Arte e Guerra Cultural: preparação para tempos de crise; organizador da Antologia Quando Tudo Transborda; entre outras obras. Pedagogo. Membro da Academia Brasileira de História e Literatura e membro correspondente da Academia Mourãoense de Letras. Vivo de poesia pra não morrer de razão.

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