Cartas à Cecília

O custo de pertencer — Cartas à Cecília #01

Detalhe de Nighthawks (1942), de Edward Hopper

Pertencer é preciso! (?) Mas dá um trabalhão danado, pois pertencemos um bocado e outro tanto não. Pertencer é ser mais forte e mais vulnerável, tudo ao mesmo tempo. O bando nos protege de outros bandos enquanto nos esmaga, dentro de nossas próprias fronteiras. O custo é alto, as exigências são várias e até irrazoáveis, muitas vezes. Num sentido macro, pergunto: como pertencer a uma terra devastada e/ou desolada? “Abril é o mais cruel dos meses” … Não! Não é ao poema de Eliot (1922) que me refiro desta vez.

Andei a revisitar a música Wasteland (2014) — terra desolada — da banda Needtobreathe, e passei o dia com “o disco” rodando em minha cabeça. Sim, a música reforça a ideia de Eliot sobre o mundo devastado, em grande divisão, em fragmentos, e nós sempre parecemos as vítimas prestes a morrer, ou a enterrar alguém, ou algo… a nos enterrar um pouco de vez em quando… “Eu sou o primeiro na fila a morrer quando a cavalaria chega”, diz a canção. Insisto: como pertencer a uma terra devastada e/ou desolada? Como pertencer a algo incompleto e fragmentado? Como ser de um todo quebrado?

Longe de ser como Travis Bickle (Taxi Driver, 1976), mas acho que o mundo precisa de uma chuva que “limpe o lixo”, nosso lixo, MEU lixo… talvez eu esteja mais próximo de Álvaro de Campos, no seu “Poema em linha reta”, vendo todos tão perfeitos, enquanto eu… nós… você sabe…! E aí está, para mim, o ponto alto da canção (em porca tradução livre): “Todas essas pessoas que eu encontro, parece que elas estão bem, sim, de certa forma eu espero que elas não estejam, e que os seus corações estejam como o meu. É errado quando pertencer parece um trabalho. Tudo o que sinto é dor” (grifos meus)

Sentimento meio mórbido, não é? Como estão — ou parecendo estar — tão bem em uma terra desolada? Quero mais que pertençam à minha dor que eu pertença a… sei lá o quê. “Onde é que há gente no mundo?” Pertencer a quê? A Trupes? A confrarias? Todas quebradas! Que por um instante ouvissem o lamento de tantos descabidos, “despertencentes”: Oh, estamos imundos, em cacos, precisamos de reparo! Acuda! Ai, acuda, sopra! É… espero que não estejam bem! Assim eu concordo em participar, em pertencer.

A canção diz, em esperança (e em porca tradução livre): “Nessa terra abandonada, onde eu estou vivendo, há uma fresta na porta, cheia de luz. E é tudo o que eu preciso para sobreviver”. E o grande mote: “Sim, se Deus está do meu lado, então, quem pode ser contra mim”.

Que trabalhão é pertencer… quebrado, ao quebrado.

Publicado por Anderson C. Sandes

Poeta, cronista, ensaísta. Autor de Baseado em Fardos Reais; Arte e Guerra Cultural: preparação para tempos de crise; organizador da Antologia Quando Tudo Transborda; entre outras obras. Pedagogo. Membro da Academia Brasileira de História e Literatura e membro correspondente da Academia Mourãoense de Letras. Vivo de poesia pra não morrer de razão.

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