No momento, o seu gosto musical é basicamente pautado pelo meu. E digo que há músicas que você gosta muito mais que eu. MUITO MAIS. Há pouco tempo, você vivia me pedindo a tal da “música da montanha” — The Mtn. Song, de Rayland Baxter (2012) — em várias ocasiões: para pintar, brincar, dormir. Eu cheguei a fugir dessa música, de tanto ouvi-la. Tirei um sabático do álbum inteiro e, quando me pedia, tentava te convencer a escolher outra. Nem sempre funcionava. Juntos, ouvimos a “música da montanha” ad nauseam.
Sua obsessão do momento é Any More, dos irmãos Cain, especialmente a versão acústica (2024). Você grita no refrão, com o inglês melhor que o meu. Como sabe, não gosto de estridências, geralmente, mas dessa eu gosto. Você viaja com essa música, deita-se na rede, balança — às custas de meus braços — e esquece o mundo, com olhos fitos em algum lugar que não vejo, mas sei que é belíssimo. Não aguento mais Any More! No bom sentido, claro.
Hoje você me chamou para balançar, e disse que eu poderia ouvir o que eu quisesse. Pensei algo como: olha, a pequena tirana está mudando. Ouvi algumas músicas… você gostou de algumas… até que sua mãe te chamou para o banho. Por enrolação típica ou por uma vontade reprimida muito forte, você pediu só mais uma: Any More. Nós rimos. Ouvimos a versão acústica, três vezes. Como diz o Baxter na “canção da montanha”: estamos fazendo tudo que nos agrada.
Sua obsessão é familiar, e que permaneça em tal pureza. Obsesse-se! Repita aquilo que é bom, verdadeiro, justo, amável, digno… ad nauseam! (Filipenses 4:8) Se tenho algo a dizer sobre essa mania de eternidade e de repetição, está dito. Any More e a “canção da montanha” são os meus campos de trigo agora.
[…] seus passos me farão sair do buraco, parecerão música convidativa. Olhe! Vê lá adiante os campos de trigo? Eu não como pão. Para mim o trigo é inútil. Campos de trigo nada significam para mim. E isso é triste! Mas seus cabelos são dourados. […] O trigo, que também é dourado, me fará lembrar de você. E me deliciarei com o afago do vento nas espigas de trigo…” (O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry)
Obsesse-se, querida! Tem nada não. Plante seus campos de trigo para o mundo. Só não me culpe depois, se continuar com o gosto parecido com o meu, de ser solitária. Espero não estar te condenando à solidão com tanta poesia. Parafraseando a “música da montanha”: poesia é tudo o que tenho para dar. Obsesse-se no que é bom, repito, para não ser esmagada ao revisitar Any More, acústica ou não. Virtude, garota!
Anderson C. Sandes, 8 de maio de 2026
