Poesia

Esta cidade

Natalia Mikhalchuck. Vilnius evening (2013)

Fico cá nesta cidade
Com seus muitos becos
Suas muitas ruelas
De jovens parados
E afazeres efêmeros
Julgo eu, todavia.

Pr’onde iria eu…
Se tudo que tenho
De realmente meu
Nesta vida
São algumas feridas
Cicatrizes contam?

Poesia

De passagem

Nicolas Poussin. Landscape with a Calm (detalhe) (1650 - 1651)

Essas vilinhas bucólicas
Quiçá melancólicas
Com bodes amarrados em algarobeiras
Recordam-me algo que fui, talvez.
Falo de um sujeito mais manso . . .
Nem sei . . .

Poesia

[Des] Fiz-me

Phong Nguyen Thanh. Lạc lõng Lost (2008)

Fogo na caatinga
Fiz-me pardal e voei
Verde na serra
Desfiz-me das asas, pousei
Era belo o caminho
Fiz pra mim botas… e andei
Fresco e calmo era o lago
(… não sei nadar)
Tive medo, e nada virei
Odiava o medo
Fiz-me coragem e nadei
E na coragem… me afoguei

Poesia

Pedras

Imagem: Reprodução / Internet

O poema a seguir é inspirado em No Meio do Caminho, de Carlos Drummond de Andrade. Segundo uma teoria, o autor teria usado de um anagrama: Pedra tem as mesmas letras que Perda. Segundo ainda tal teoria, o poema teria sido para expressar a perda de seu filho, que sobreviveu apenas por meia hora, depois do parto. Meu poema, apesar da referência, não traz a mesma conotação. Falo de oportunidades perdidas, escolhas, pessoas, e tudo o que se pode optar na vida. Deixo abaixo de meu poema, um recital do poema de Drummond.

Poesia

Cada qual em seu lugar

Martin Johnson Heade. Blue Morpho Butterfly (1864)

Por mais que eu cante
Não me vêm as borboletas
Inda que’u grite
Não me responde a lua
Deve estar cheia… cheia de mim

Pr’onde vão as borboletas
Quando fogem de mim?
Seja lá onde for
Rejeitam meu canto
E cá estou em meu canto

Poesia

Voltas

Carl Frederik Sørensen. A Wreck on the West Coast of Jutland at Sunset (1847)

De todas as minhas voltas…
De todas as minhas voltas…
Uma não reparei
Foi a que dei em torno de mim
Vi tudo o que há de rotação
Mas não percebi minhas sete
Meias-voltas e o voltar
Para o caminho d’onde vim

Poesia

Belo

William-Adolphe Bouguereau. The Day of the Dead (1859)

Me admiro com o belo
E em tudo que há beleza
Temo por meu túmulo
Minha futura morada
Futura fortaleza
Que não seja feio, meu Deus
Que não seja feia

Poesia

Disfarce

Gustave Caillebotte. Paris Street; Rainy Day (1877)

Não estou chorando,
estou chovendo!
Chove nos desertos
de minhas pálpebras
pra dentro

Por fora das janelas da alma
observo a chuva.
Cheiro de face molha…
Cheia de nuvens pesadas.
Cinza tal qual dia nublado.

Poesia

Migração

Martin Johnson Heade. Fork-Tailed Woodnymph (1850)

Migram as aves pro meu coração
Eis que findou meu inverno
Nesse inferno de frieza
Nesses lagos congelantes
Onde meu Narciso feio se contempla
E acha bela sua estranheza 

Poesia

Profunduras

Gustave Doré (1863)

Plantada é a semente,
e a raiz se aprofunda.
Para ser a mais crescente
mais e mais ela se afunda

Perdoe minha dureza,
mas ser mole me arrasou.
Vim da profundeza
Ser profundo é o que sei,
é o que sou.