Poesia

Chega a noite

Vincent van Gogh. The Starry Night (1889)

Chega a noite
Vão-se as moscas
Voltam-se os mosquitos
As primeiras zumbirão suas filosofias
Larvais em outros ares
Os segundos querem sangue
E ferem mais fundo
Mais profundo na gente
Que bate, que bate
Que mata

Poesia

Amarelo

Começam a amarelar as fotos
dos tempos pueris.
(Bons tempos…)
Amarela o sorriso, 
amarelam alguns livros, 
amarelam as cartinhas,
(onde quer que elas estejam…)
amarelam as memórias 
que não são mais tão claras,
e os ossos, e a pele… 

Poesia

Do ser o que é

Rembrandt. A Young Scholar and his Tutor (1629 - 1630)

Concentro-me em algaravias amiúdes 
De arquétipos mui caros…
Tento ouvir a todos.
Alguns corifeus de meus valores amados,
Valores escritos em lábaros…
Que se perderam em meio à escatologia,
(E tantas outras “gias”)

Alguns ainda se acham em epopeias, em ilíadas…
Ainda que rotos…
Ainda que tolos…
Ainda que soltos…

Poesia

Voltas

Carl Frederik Sørensen. A Wreck on the West Coast of Jutland at Sunset (1847)

De todas as minhas voltas…
De todas as minhas voltas…
Uma não reparei
Foi a que dei em torno de mim
Vi tudo o que há de rotação
Mas não percebi minhas sete
Meias-voltas e o voltar
Para o caminho d’onde vim

Poesia

Migração

Martin Johnson Heade. Fork-Tailed Woodnymph (1850)

Migram as aves pro meu coração
Eis que findou meu inverno
Nesse inferno de frieza
Nesses lagos congelantes
Onde meu Narciso feio se contempla
E acha bela sua estranheza 

Poesia

Profunduras

Gustave Doré (1863)

Plantada é a semente,
e a raiz se aprofunda.
Para ser a mais crescente
mais e mais ela se afunda

Perdoe minha dureza,
mas ser mole me arrasou.
Vim da profundeza
Ser profundo é o que sei,
é o que sou.

Poesia

O cri cri

Antoine Watteau. The Italian Comedians (1720)

Repousam os versos
Onde o poeta não pode descansar
Versos profundos voam
Os de superfícies e os superficiais
Vão às profundezas
E morrem sufocados
Sufocados em terra
Onde cada alma tem sua parte
Prefiro a poesia da lágrima de tinta do pierrot
Que do sorriso da mais bela
Liberta-me o canto fúnebre
Algemam-me os tamborins
Deleito-me nas trevas
Não suporto a luz do dia
O frio me comove
Traz-me cólera o calor
Por vezes a solidão me consola
E a multidão em júbilo me enlouquece
Que sentido há? Que sentido há?

Poesia

Cicatriz

Hendrick ter Brugghen. The Incredulity of Thomas (1622)

A quem se dedica uma dor?
Essa dor de cicatriz
Essa dor de passado
Essa dor que não passa
Ferida fechada há tempos
Mas traz na pele a memória

Poesia

Da imaginação

Caio Santos. Dom Quixote de La Mancha, o cavalheiro de Cervantes (2001)

Fecham-se os olhos
E viro um herói
O melhor poeta
O melhor atleta
O melhor de mim
O melhor que não sou

Poesia

Jubileu de que

Vincent van Gogh. Wheatfield with Crows (1890)

Aquele que é profundo
Sofrerá profundamente
Fará tudo pelas profundezas
Pagará o preço por sentir em dobro

Anda, recolhe as espigas do chão
Pois longe está o teu Jubileu
Não há perto de ti nenhum que seja o goel
Procurar um refúgio é achar tua morte
Procurar a morte nunca será refúgio
Pois és profundo