Poesia

O velho Emílio

Johann Carl Loth. Diogenes (detalhe) (Século XVII)

In memoriam de Emílio Cordeiro de Lima

Jaz a lua minguante
Sobre a serena garoa
Que pega fúria
Horas depois da viração

Emílio levanta clamando por Maria
— Ali outra goteira, traz o balde
Sinto o cheiro de querosene
Queimando no candeeiro
Oh! que agradável, ah!
Dane-se a minguada lua
A miserável e tímida
Obscurecida agora pelo toró
Que faz pingar o telhado

O velho raspa o fumo co’a
Navalha, repousa-o na seda
Fita um lugar p’ra cuspir
Antes do trago
Em julho as pernas doem mais
A coluna entreva
Mas deixa estar
Balança a garrafa
Em busca de café
— Maria, Maria
Alumia a rede
Onde finge dormir o neto
Que a tudo observa
A meia luz e meio olhar
Escondendo o sorriso
O velho, por sua vez
Não disfarça a graça
— Deixa eu deitar aí
— Venha, vô
Digo não mais ocultando o riso
— Tenha medo não
Diz, referindo-se às trevas

Entrego a rede como oferenda
E a passos largos
Vou ao pote de barro buscar água
Um trovão bambeai-me as pernas
E penso em voltar
— Tenha medo não
Brada a voz pelas sombras
Pura carícia
Levo o caneco direto
À boca, sem despejar em outro
Ninguém está vendo
Volto tateando, veloz
Destreza de frouxos
— Tenha medo não

Três ou quatro baldes
De goteira engrossam
A noturna sinfonia
Perfeita para o repouso
Vem Maria do leito
Perplexa e supersticiosa:
— Ouviram? A rasga mortalha
— Misericórdia
O silêncio reinou

(…)

Ainda sinto o cheiro do querosene
Do candeeiro de vovô
Aquela rasga mortalha
Vez ou outra passa por cima
De meu telhado
Aprendi a amar seu canto
Recorda-me tudo
Cada luar
Cada pingo
Cada cuspida antes do trago
O velho pote d’água
O caneco amassado
Tudo permanece aqui dentro
Por causa do velho
Emílio
Que descansa em paz

ANDERSON C. SANDES — MARÇO DE 2021

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