Texto

Aquele que fere: um ensaio sobre a dor

Professor Morteza Katuzian. Menina triste, detalhe (1986)

O que tenho eu nesta vida para cuidar além de algumas feridas? Perguntei-me durante uma de minhas curtas e constantes crises existenciais. Quem não tem uma dessas pelo menos uma vez por semana? Logo me veio à memória algumas leituras que fiz, que tratam sobre a dor, pois quando se fala em feridas abertas se fala em dor — e sofrimento —. Fiz um paralelo entre essas memórias.

Poesia

Jubileu de que

Vincent van Gogh. Wheatfield with Crows (1890)

Aquele que é profundo
Sofrerá profundamente
Fará tudo pelas profundezas
Pagará o preço por sentir em dobro

Anda, recolhe as espigas do chão
Pois longe está o teu Jubileu
Não há perto de ti nenhum que seja o goel
Procurar um refúgio é achar tua morte
Procurar a morte nunca será refúgio
Pois és profundo

Poesia

Cosmos jardim

Otto Stark. Garden in Paris (1885)

Bem arado foi o céu

Enchido com sementes de estrelas
Como serão suas flores?
Rosadas de luz? Cheias de cores?
Quem as colherá? Quem escolherá?

Há um jardineiro?

Um bastaria? 
Como se podam estrelas?
Quem… quem as regaria?

Poesia

O cão sem plumas — João Cabral de Melo Neto

Imagem: Reprodução / Internet

I. Paisagem do Capibaribe

A cidade é passada pelo rio 
como uma rua 
é passada por um cachorro; 
uma fruta 
por uma espada.

O rio ora lembrava 
a língua mansa de um cão, 
ora o ventre triste de um cão, 
ora o outro rio 
de aquoso pano sujo 
dos olhos de um cão.

Poesia

Eu oposto

Jacob Jordaens. Two Studies of the Head of an Old Man (1630)

Por vezes durmo na clave de sol
E acordo na clave de fá
E tudo mexe…
Tudo sai do lugar

Nesses dias prefiro um banho frio
E uma janta quente
Tudo como não é de costume

Poesia

Humor solitário

Rembrandt. Titus, the Artist's Son (1660)

Algo me trouxe alegria
E resgatou o meu riso
Como qualquer bobo que ri
Ri

Como quem sente cheiro de café
Como quem ouve as primeiras palavras de criança
Como o por do sol que traz o Shabbat
Como um “eu te amo” antes de dormir

Poesia

Chega o tempo

Hans Baldung. The Three Ages of Man and Death (1510)

Relembrando um verso antigo
Cheguei à conclusão
De que nada é tão antigo
Que não toque um coração
De forma tão severa
Como a chuva toca o chão

Poesia

Vida em papel

Giuseppe ARCIMBOLDO, The Librarian (1566)

Que mundo de papelão

Cheio de seres de machê
De vida difícil e de fácil fim

Ah, este mundo de poeira

Cheio de homens de barro
Pequenos porrões pisando em betão pintado
Pintado por mãos
Não por acaso

Poesia

De Babilônia a Patmos

Peter Paul Rubens. Daniel in the Lions' Den (1614 - 1616)

Vem vindo um mar de gente
Seguram-se os ventos de guerra
Há um animal que governa
E oprime um povo inocente

Poesia

Um lugar pra viver

Vincent van Gogh. Farmhouse in Provence (1888)

Ah, quem me dera um lar no Pacífico
De fronte ao oceano sem memória
Eu não sei nadar. Eu não sei nada
Quero um lar pacífico, quero uma história.