Poesia

Um chapéu

Paulo Frade. O Sertanejo II (2012)

Um bom homem deve levar
Na cabeça um bom chapéu
Tira-se o chapéu
Para respeitar alguém
Ou um ambiente respeitável
À moça que passa
Ao rapaz que observa
À nave da capela

Poesia

Caraibeira

Vincent van Gogh. The Large Plane Trees (1889)

Qual caraibeira florescida
com vagens verdinhas e longas
surgi, depois d’um inverno quente
e longo verão brasil.

Com vergonha dos pardais
calei o canto rouco da manhã;
manhã que logo veio,
sem que percebesse meus olhos.

Poesia

Bole bole, criança

Candido Portinari. Roda infantil (1932)

Esses terreiros tortos
com crianças buliçosas só têm aqui!
Pr’acolá pode ter… mas não é igual,
boa bagunça e gritaria só em nosso quintal.

Esses campinhos de areia
com crianças malinas só têm aqui!
Pr’acolá pode até ter… mas é diferente,
nenhuma perna cambota faz gol como a gente.

Poesia

Das memórias que perdi

Rembrandt. Study of an Old Man in Profile (1630)

Quem seria eu agora,
sem saber quem fora em outrora?
Se dantes fui moço,
tento debalde recordar das paixões…
[…] oxalá! Que eu tenha tido, meu Deus!

Fito as pinturas nas paredes,
sem saber se as amava ou as detestava.
Oh, como é bela aquela tela,
que eu achava antes dela?
Nem sei mesmo quem a pintou.

Poesia

Pouco sou

Jean-Honoré Fragonard. Young Girl Reading (1770)

Por mais que eu foleasse
todas as páginas,
me enterrariam sem
de nada eu saber.
Mas de um nada muito grande…

Tão grande e profundo
que eu me afogaria.
Insisto: não sei nadar!
Não sei de nada…
Apenas me afogo.

Poesia

Deserto

Jean-Léon Gérôme. On the Desert (1867)

Quem nunca deixou
pegadas na areia?
Quem não sentiu
o pé no chão queimar?
Nesse deserto
toda alma vadeia.
Quem nunca teve
grão vil no olhar?

Poesia

Pena do Tinteiro

Armand Gautier. Untitled (1884)

— Onde está a tinta
para minha pena?
— Tomei-a, pensando
ser ela tóxica,
não era, todavia.

— Onde está a tinta?
— Oh, que pena!
Cuspo-a agora
em papel picado
cada palavra vã.

Poesia

Amarelo

Começam a amarelar as fotos
dos tempos pueris.
(Bons tempos…)
Amarela o sorriso, 
amarelam alguns livros, 
amarelam as cartinhas,
(onde quer que elas estejam…)
amarelam as memórias 
que não são mais tão claras,
e os ossos, e a pele… 

Poesia

Ave preta

Imagem: Francisco Souza / Flickr (com edição)

Oh, aquela ave preta
sobre galhos rijos cinzentos.
Oh, meu sertão que se encontra verde,
tudo um pouco mais belo.
Mas a ave insiste co’a morte
ao pousar naqueles galhos podres;
podres, mas rijos.

Poesia

Conselhos d’um ermitão urbano

Berthold Woltze. Good Advice Is Expensive! (1873)

Cala-te, oh boca cansada!
Afia tua língua entre os dentes,
Afim de seres mortal,
Afim de não seres banal.

Fala, oh lâmina afiada!
Choca aquele que escuta!
Dá-lhe um golpe de verdade,
Dá-lhe perturbações à alma.