Poesia

Da chuva que cai

Childe Hassam. Rainy Day, Boston (1885)

Quão apressadas caem
essas gotas nos torrões.
Como quem sente saudade,
logo voltam a correr, seguem o curso
como fora em outrora.

Não sabeis, pois, que
a vida é hostil?
Ou apenas seguem essa
tirânica lei natural
de ir e vir… ir e vir…?

Poesia

Mentalidade vermelha

Imagem: Reprodução / Internet

Oh, Mentalidade vermelha
Que com foices abrem crânios
E com martelos esmagam a massa cinzenta
Esmagam a massa…
E cinza é o seu futuro
Non ego sum
Não me associo a eles

Não suporto a histeria
De bandeiras tristes e falsas
Nas praças
Ah, essas praças…
Sempre tão cheias deles…
Não têm muito o que fazer?

Poesia

Da vida

Jacob van Hulsdonck. Still Life with Lemons, Oranges and a Pomegranate (1620 - 1640)

Já vi alguns invernos
Já vi alguns infernos
Vi infernos em invernos 
E invernos em infernos

Com cantos tristes já sorri
Com cantos alegres já chorei
Em cantos tristes já me ri
Em alegres cantos lamentei

Poesia

Que coisa terrível

Santiago Rusiñol. Senyor Quer in the Garden (detalhe) (1889)

Oh, que coisa terrível
parecia fazer aquele homem.
Todos olhavam, se cutucavam e apontavam.
— De que se trata?
Perguntavam os desavisados,
que de longe forçavam as vistas
para ver o conteúdo que o indivíduo portava.

Poesia

Cada dia

Michelangelo Merisi da Caravaggio. David and Goliath (1599)

Voam as moscas num tom de fá,
Zum zum zum infernal
Em meio aos corpos fétidos.
Geme a marreta em atrito
Com a bigorna…

Poesia

Esta cidade

Natalia Mikhalchuck. Vilnius evening (2013)

Fico cá nesta cidade
Com seus muitos becos
Suas muitas ruelas
De jovens parados
E afazeres efêmeros
Julgo eu, todavia.

Pr’onde iria eu…
Se tudo que tenho
De realmente meu
Nesta vida
São algumas feridas
Cicatrizes contam?

Poesia

De passagem

Nicolas Poussin. Landscape with a Calm (detalhe) (1650 - 1651)

Essas vilinhas bucólicas
Quiçá melancólicas
Com bodes amarrados em algarobeiras
Recordam-me algo que fui, talvez.
Falo de um sujeito mais manso . . .
Nem sei . . .

Poesia

[Des] Fiz-me

Phong Nguyen Thanh. Lạc lõng Lost (2008)

Fogo na caatinga
Fiz-me pardal e voei
Verde na serra
Desfiz-me das asas, pousei
Era belo o caminho
Fiz pra mim botas… e andei
Fresco e calmo era o lago
(… não sei nadar)
Tive medo, e nada virei
Odiava o medo
Fiz-me coragem e nadei
E na coragem… me afoguei

Poesia

Pedras

Imagem: Reprodução / Internet

O poema a seguir é inspirado em No Meio do Caminho, de Carlos Drummond de Andrade. Segundo uma teoria, o autor teria usado de um anagrama: Pedra tem as mesmas letras que Perda. Segundo ainda tal teoria, o poema teria sido para expressar a perda de seu filho, que sobreviveu apenas por meia hora, depois do parto. Meu poema, apesar da referência, não traz a mesma conotação. Falo de oportunidades perdidas, escolhas, pessoas, e tudo o que se pode optar na vida. Deixo abaixo de meu poema, um recital do poema de Drummond.

Poesia

Cada qual em seu lugar

Martin Johnson Heade. Blue Morpho Butterfly (1864)

Por mais que eu cante
Não me vêm as borboletas
Inda que’u grite
Não me responde a lua
Deve estar cheia… cheia de mim

Pr’onde vão as borboletas
Quando fogem de mim?
Seja lá onde for
Rejeitam meu canto
E cá estou em meu canto