Conto

O sonho de um homem ridículo — Fiódor Dostoiévski

Retrato de Dostoiévski. Óleo sobre tela de Vasily Perov (1872). Galeria Tretyakov, Moscou.

Narrativa fantástica, 1877.

I

Sou um homem ridículo. Agora já quase me têm por louco. O que significaria ter ganho em consideração, se não continuasse sendo um homem ridículo. Mas eu já não me aborreço por causa disso, agora já não guardo rancor a ninguém e gosto de toda a gente, ainda que se riam de mim… sim, senhor,  agora, não sei por quê, mas sinto por todos os meus próximos uma ternura especial. Teria muito gosto em acompanhá-los no vosso riso… não precisamente nesse riso à minha custa, mas sim pelo carinho que me inspiram, se não me fizesse tanta pena vê-los. É pena que não saibam a verdade. Oh, meu Deus! Quanto custa isso de ser um só a saber a verdade! Mas isto não compreendem eles. Não, nunca compreenderiam isto.

Poesia

Chega a noite

Vincent van Gogh. The Starry Night (1889)

Chega a noite
Vão-se as moscas
Voltam-se os mosquitos
As primeiras zumbirão suas filosofias
Larvais em outros ares
Os segundos querem sangue
E ferem mais fundo
Mais profundo na gente
Que bate, que bate
Que mata

Poesia

Das memórias que perdi

Rembrandt. Study of an Old Man in Profile (1630)

Quem seria eu agora,
sem saber quem fora em outrora?
Se dantes fui moço,
tento debalde recordar das paixões…
[…] oxalá! Que eu tenha tido, meu Deus!

Fito as pinturas nas paredes,
sem saber se as amava ou as detestava.
Oh, como é bela aquela tela,
que eu achava antes dela?
Nem sei mesmo quem a pintou.

Poesia

Pouco sou

Jean-Honoré Fragonard. Young Girl Reading (1770)

Por mais que eu foleasse
todas as páginas,
me enterrariam sem
de nada eu saber.
Mas de um nada muito grande…

Tão grande e profundo
que eu me afogaria.
Insisto: não sei nadar!
Não sei de nada…
Apenas me afogo.

Poesia

Amarelo

Começam a amarelar as fotos
dos tempos pueris.
(Bons tempos…)
Amarela o sorriso, 
amarelam alguns livros, 
amarelam as cartinhas,
(onde quer que elas estejam…)
amarelam as memórias 
que não são mais tão claras,
e os ossos, e a pele… 

Poesia

Ave preta

Imagem: Francisco Souza / Flickr (com edição)

Oh, aquela ave preta
sobre galhos rijos cinzentos.
Oh, meu sertão que se encontra verde,
tudo um pouco mais belo.
Mas a ave insiste co’a morte
ao pousar naqueles galhos podres;
podres, mas rijos.

Poesia

Do ser o que é

Rembrandt. A Young Scholar and his Tutor (1629 - 1630)

Concentro-me em algaravias amiúdes 
De arquétipos mui caros…
Tento ouvir a todos.
Alguns corifeus de meus valores amados,
Valores escritos em lábaros…
Que se perderam em meio à escatologia,
(E tantas outras “gias”)

Alguns ainda se acham em epopeias, em ilíadas…
Ainda que rotos…
Ainda que tolos…
Ainda que soltos…

Poesia

Da vida

Jacob van Hulsdonck. Still Life with Lemons, Oranges and a Pomegranate (1620 - 1640)

Já vi alguns invernos
Já vi alguns infernos
Vi infernos em invernos 
E invernos em infernos

Com cantos tristes já sorri
Com cantos alegres já chorei
Em cantos tristes já me ri
Em alegres cantos lamentei

Poesia

[Des] Fiz-me

Phong Nguyen Thanh. Lạc lõng Lost (2008)

Fogo na caatinga
Fiz-me pardal e voei
Verde na serra
Desfiz-me das asas, pousei
Era belo o caminho
Fiz pra mim botas… e andei
Fresco e calmo era o lago
(… não sei nadar)
Tive medo, e nada virei
Odiava o medo
Fiz-me coragem e nadei
E na coragem… me afoguei

Poesia

Voltas

Carl Frederik Sørensen. A Wreck on the West Coast of Jutland at Sunset (1847)

De todas as minhas voltas…
De todas as minhas voltas…
Uma não reparei
Foi a que dei em torno de mim
Vi tudo o que há de rotação
Mas não percebi minhas sete
Meias-voltas e o voltar
Para o caminho d’onde vim